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Preciso esconder meu artista para que o negócio retome os lucros. Conhecem essa artimanha comercial?

Colunistas Destaques Maurício Ferigato 27 de dezembro de 2018

Preciso esconder meu artista para que o negócio retome os lucros. Conhecem essa artimanha comercial?

Sabe a célebre frase ” Todo mundo vê as pingas que eu tomo e ninguém vê os tombos que eu caio “. Isso é muito mais frequente no mercado sertanejo do que você imagina e vou te explicar um pouco disso, mesmo sabendo que muitos profissionais do meio não gostam de tocar nesse assunto.

Quero usar aqui o exemplo de uma dupla que vou chamar de “Artista X” que iniciou a sua carreira como todos os outros iniciam mesmo, tocando em butecos, atraindo parentes para as mesas e toda aquela realidade que você já conhece.

O Artista X começa a destacar-se até que resolve dar um pulo mais alto e sai em busca de um investidor (que nem mesmo eles sabem como trabalhar), mas como todo mundo sai atrás, também resolvem sair e até que depois de muitos churrascos por aí acabam achando um empresário que gosta deles e acaba querendo “investir” em suas carreiras, mas esse empresário em suas áreas de trabalho está no mercado do sabão em pó, no mercado das pinturas prediais, no mercado das rações de cachorros e tantos outros exemplos que nada a ver tem com a carreira artística, mas mesmo assim ele determina um tempo X para que todo seu investimento financeiro retorne, e aí que tá o problema do “Artista X”, que só sabe cantar, diz que sabe compor e sequer sabe selecionar bem a sua futura banda que o acompanhará.

Mas na parte musical esse mesmo artista já quer de cara gravar um DVD, porque ele tem necessidade de aparecer, mas esquece que um bom projeto precisa de roteiristas, assim como em filmes, novelas ou programas de televisão e nem sempre as suas idéias são as que facilitam o projeto. Na grande maioria escolhem gravar na natureza, mas esquecem que lá dependem de clima (chuva ou vento), luzes, tomadas, geradores e tantos outros problemas de logísticas de equipamentos. Complicado né ?

Logo depois de tudo gravado ele diz que vai lançar em todas as rádios do Brasil, que nunca nem de perto é verdade já que somente o estado do Paraná tem perto de 400 rádios operando, imagina então no Brasil todo como seriam as parcerias comerciais com as rádios? Tem fundo esse saco de investimentos ?

Depois de algumas parcerias fechadas o “Artista X” quer seu próprio cenário de palco, padronização de equipe e o chamado ônibus para o translado de toda a equipe, e daí vem as surpresas do valor na plotagem do ônibus, na manutenção do veículo e nas despesas mensais que nessa hora provavelmente já tem até outros veículos plotados para visitas as rádios.

Tá e os shows ? Cadê os shows que pagam todas as despesas ? Ahhhh isso o artista não faz porque ele quer ter a equipe de trabalho sobre seus olhos e ele ser o chefe, mas os investimentos de AQUECIMENTO de seu nome ele nem pensou e aí sim vai-se muito dinheiro, afinal quem não é visto não é lembrado. E lá do outro lado o investidor X começa a abrir os olhos que só viu dinheiro saindo e nada entrando até então.

Como sou uma pessoa otimista vou pelo caminho que o projeto deu certo e os Artistas X já estão com os cachês que começariam a vender em 5 mil reais atingir até 80 mil reais por show. E é aí que eu volto na frase “Todo mundo vê as pingas que eu tomo e ninguém vê os tombos que eu caio”. Vocês tem agora noção do quanto é o investimento mensal de toda essa estrutura ? Mas os amigos, concorrentes e profissionais da área só ficam de olho em quantos shows o Artista X tem feito mês a mês.

Num intervalo de tempo os cachês deles estavam ótimos mas aos poucos o seu nome vai esfriando e os valores abaixando dia após dia, mas o Artista X recusa-se a reconhecer que seu valor comercial não é mais o mesmo. É nessa hora que ele quebra a cabeça para ter idéias geniais, mas como todos são limitados naquela outra área inicial de tudo, fora do lado musical e que diz respeito a investimento, sequer pensam que deveriam voltar algumas casas atrás, assim como se fosse um joguinho de pular casinhas da sua infância, mas é isso que precisam mais do que nunca se reinventarem.

Nesses meses de fim de um ano e início de outro ano os empresários e vendedores de shows acabam usando uma ferramenta que pode “ATÉ” surtir algum efeito, que é “ESCONDER” o artista numa certa região do Brasil.

E o que é o “ESCONDER” que eu disse? Você leva seu artista que tinha um cachê de R$ 80.000,00 para turnês em estados que a música sertaneja não é a fatia principal do mercado sertanejo como cidades pequenas de Santa Catarina, Rio Grande do Sul e até do Mato Grosso ou Mato Grosso do Sul por cachês em torno de R$ 15 à 20.000,00 com a desculpa que esses estados ainda não fizemos ações e não atacamos comercialmente, mas a verdade é que não foram antes porque ali paga-se pouco.

Entre janeiro, fevereiro e março as agendas deles ficam completas, com cachês lá embaixo e o empresário + o agente de vendas faz um esforço sobrenatural para que essa agenda apareça nos olhos dos outros contratantes do Brasil e bingo !!!

O cachê não volta ao patamar dos R$ 80.000,00 mas pelo menos mantém-se na casa intermediária dos R$ 40.000,00 e isso perdura-se até criarem um novo projeto do DVD, do novo disco e de tudo mais.

Mas e se essa tática não der certo, e o ARTISTA X não agradar nesse período com seus shows ? Qual é o fim do projeto ? Abaixo meu cachê para continuar na estrada ? Diminuo meus custos para não entrar no vermelho ? O que faço com esse ônibus agora ? Preciso de uma música pipoco pra me reerguer ou é meu último suspiro.

Se nada disso acontecer aparecem nas redes sociais os comunicados que a dupla encerra um ciclo de trabalho vitorioso aonde cada um dos integrantes do ARTISTA X irá seguir caminhos pessoais e a agenda será cumprida normalmente até a data X. Que cada fã é muito importante e agradecem o respeito dos contratantes, radialistas e etc. (acho que vocês já viram muito esse cenário nos últimos dias né?).

Mas nesse tempo todo o ARTISTA X não preocupou-se em formar sua própria rede de público consumidor de tudo que sua carreira proporcionaria e pensou somente em subir no palco, cantar e postar fotos com carrões, mansões, fazendas, viagens ao exterior para inflar o seu EGO próprio e em nenhum momento deu valor a quem lá atrás estava desbravando o mato do mercado sertanejo para mostrar que ali tinha alguém lutando para levar a sua arte a quem realmente interessaria.

O público !!!

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